Pessoalidade: O feto é um ser humano?

Por Joyce Arthur (Copyright © Agosto 2001)

O principal argumento do movimento anti-escolha se resume  nisso: um zigoto, blastócito, embrião ou feto humano é um ser humano com direito à vida, e que aborto portanto é assassinato e deveria ser ilegal.  Essa suposição, no entanto, é profundamente falha.

Desde o início deixe me dizer que do ponto de vista pró-escolha, o status do feto é uma questão irrelevante. Independentemente se o feto é um ser humano ou tem direitos, mulheres farão abortos, mesmo que isso signifique infringir a lei ou arriscar a vida delas. Mesmo mulheres que acreditam que o aborto é assassinato já escolheram fazer abortos, e continuarão a fazê-lo. É por isso que nós deveriamos deixar essa decisão para a consciência moral da mulher, e certificar-se de que elas tenham à disposição abortos legais, seguros e acessíveis. Pois em última instância, o status do feto é apenas uma questão de opinião subjetiva, e nesse caso, a única opinião que conta é a da mulher grávida. Por exemplo, uma grávida feliz pode sentir amor pelo feto como se fosse um ser humano especial e único, um membro muito bem-vindo e aguardado da família dela. Ela dá nome ao feto, refere-se a ele como bebê, conversa com ele, assim por diante. Uma grávida infeliz pode ver seu feto com total desânimo, beirando a repulsa. Ela não consegue se referir a ele como algo diferente de “isso,” muito menos um ser humano. Ela está desesperada para se livrar desse invasor indesejado, e quando ela faz, ela sente um enorme alívio. Ambas reações ao feto, e todas as reações entre esses dois sentimentos, são perfeitamente válidas e naturais. Uma mesma mulher mulher pode, inclusive, ter ambas as reações com gravidezes diferentes.

No entanto, anti-escolhas insistem que não somente o feto é um ser humano, mas que seu status é um fato científico objetivo. Infelizmente, eles estão presumindo algo que exige provas, desse modo cometendo uma falácia lógica de “presumir o ponto inicial.”*Biologia, medicina, jurisprudência, filosofia, e teologia não alcançaram consenso sobre a questão, e nem mesmo a sociedade como um todo. Nunca haverá consenso por causa a subjetividade e a natureza não científica da afirmação, por causa disso, nós devemos dar as mulheres o benefício da dúvida, já que elas são indisputavelmente seres humanos com direitos.

Anti-escolhas precisam afirmar que fetos são seres humanos,  senão eles não teriam nenhum caso contra aborto. Já que essa afirmação é pedra angular da posição deles, deve ser criticada em detalhes, a partir de perspectivas filosóficas, sociais e biológicas. Mesmo que não haja nenhuma relevância para a prática real do aborto, a afirmação de que fetos são seres humanos tem um impacto potencialmente grande sobre os direitos de mulheres.

Desconstruindo a linguagem anti-escolha

Antes de ir adiante, nós precisamos clarificar e interpretar a línguagem anti-escolha. Primeiro, anti-escolhas confundem o adjetivo “humano” com o substantivo “ser humano,” dando a eles o mesmo significado. Eu fico perplexa com a pergunta que eles frequentemente fazem aos pró-escolhas: “Mas não é humano?” – como se nós secretamente pensassêmos que o feto é criatura do espaço. Se você apontar que o feto consiste de tecido e DNA humano, anti-escolhas afirmam triunfantemente que você admitiu que é um ser humano. Agora, um floco de caspa na minha cabeça é humano, mas não é um ser humano, e nesse sentido, também não é o zigoto. Anti-escolhas irão responder que um óvulo fertilizado não é como caspa, porque o óvulo fertilizado consiste em um conjunto único de cromossomos que faz dele um ser humano separado. Mas com clonagem, uma célula da minha caspa é o suficiente para criar um novo ser humano. Apesar de ter a minha identidade genética, ele seria um indíviduo único, pois seres humanos são mais do nossos genes (eu vou me expandir sobre assunto mais tarde). Além de que, ambos, o óvulo fertilizado e a célula clonada representam um ser humano em potencial, não um ser humano real. É clichê desgastado, mas vale a pena repetir: uma bolota não é um carvalho e o ovo que você comeu no café da manhã não é uma galinha.

Anti-escolhas também usam a frase “humanidade do feto,” com a qual eles podem querer dizer suas qualidade físicas humanas, mas a mesma é ambígua, talvez propositadamente. Nesse contexto, a palavra “humanidade” implica sentimentos compassivos e virtude humana, como sorfrimento ou amor. O termo parece inteligentemente concebido para gerar simpatia pelo feto, e atribuir a ele qualidades humanas que ele simplemente não tem. A habilidade sentir alegria, tristeza, raiva, e ódio são partes integrais da nossa “essência humana,” e nós não aprendemos a desenvolver tais emoções sofisticadas até que começamos a interagir com outros.

Uma frase substituta ouvida de anti-escolhas é: “É uma vida” – outro termo ambíguo e vago. De fato, ele está certamente vivo,  e poderia ser razoavelmente discutido que um feto é uma entidade distinta viva (um ponto debatível aliás, por causa da dependência do corpo da mulher), mas esse raciocínio pode ser aplicado a qualquer coisa viva, incluindo vermes e germes. Simplesmente chamar o feto de “uma vida” não diz nada, a não ser que o termo seja uma outra maneira de dizer “um ser humano,” o que significa que anti-escolhas estão apenas presumindo o ponto inicial novamente.

O mesmo problema aflige a frase anti-escolha: “Vida começa na concepção.” Biologicamente falando, essa é uma declaração sem sentido já que vida começou apenas uma vez nesse planeta, mais de três bilhões de anos e meio atrás, e ainda não parou desde então. Um óvulo fertilizado é simplesmente vida continuando em uma forma modificada – apenas um pequeno passo removido do espermatozóide e óvulos separados, ambos vivos antes de se juntarem, e ambos representando um potencial genético único de um ser humano. No contexto anti-escolha, o termo “Vida começa na concepção” pode apenas ser traduzido como: “Um ser humano começa na concepção.” Mais uma vez, isto é presumir o ponto inicial. Talvez um ser humano em potencial comece na concepção, mas o fato de que a vida é um continuidade torna isso ainda mais equivocado.

O feto é ser humano?

Historicamente, um feto nunca (ou muito raramente) foi considerado um ser humano, pelo menos não até a “vivificação,” um termo antigo indicando o movimento perceptível. A Igreja Católica mesmo permitia aborto antes da vivificação até 1869.  Além disso, uma larga variedade de leis ao redor do mundo foram escritas especificamente para proteger o ser humano nascido e a propriedade deles.  Não há praticamente nenhum precedente legal aplicando tais leis a fetos. Mesmo quando aborto era ilegal, a punição era menor do que um assassinato, e muitas vezes era apenas uma contravenção. A visão anti-escolha de fetos como seres humanos é portanto nova e peculiar, com pouco precendente histórico e legal para apóia-la.

Fetos são excepcionalmente diferentes de seres humanos nascidos de forma geral, o que lança dúvida sobre a afirmação de que eles podem ser classificados como seres humanos. A diferença mais fundamental é que um feto é totalmente dependente do corpo de uma mulher para sobreviver. Anti-escolhas podem dizer que seres humanos nascidos podem ser totalmente dependentes de outras pessoas também, mas a diferença crucial é que eles não dependem de uma pessoa específica, com exclusão de todas as outras. Qualquer um pode tomar conta de um recém-nascido (ou pessoa deficiente), mas apenas aquela mulher grávida pode nutrir o seu feto. Ela não pode contratar alguém mais para fazer isso.

Uma outra diferença chave é que um feto não apenas depende do corpo de uma mulher para sobreviver, na realidade ele reside dentro do corpo dela. Seres humanos, por definição, são indíviduos separados. Eles não recebem o status de ser humano em virtude de viver dentro do corpo de um outro ser humano – esse tipo de pensamento é inerentemente ridículo, até mesmo ofensivo.

O feto tem “direito à vida”?

Anti-escolhas dizem que o feto tem um  inerente “direito à vida.” Mas muitos deles apóiam exceções para a proibição de abortos em casos de estupro, incesto, ou ameaça à vida da mulher e até mesmo saúde. Isto claramente indica que eles acreditam que o direito à vida é negociável, e não absoluto ou supremo.  Ao comprometer a definição de “direito à vida” deles, com o intuito de acomodar o direito da mulher, eles inadvertidamente reconhecem que os direitos de mulheres são mais importantes do que o “direito à vida” dos fetos.

Mesmo se puder ser dito que um feto tem direito à vida, isso não inclui o direito de usar o corpo de um outro ser humano. Por exemplo, o estado não pode forçar pessoas a doar órgãos ou sangue, mesmo para salvar a vida de alguém. Nós não somos obrigados por lei a arriscar nossas vidas ao pular dentro de rio para salvar uma vítima se afogando, não importa quão nobre isso pode ser. Portanto, mesmo que um feto tenha o direito à vida, não se pode exigir que a mulher grávida empreste seu corpo por nove meses para salvá-lo contra a vontade dela. (Em resposta, anti-escolhas dizem que estar grávida não é a mesma coisa que ser um Bom Samaritano, pois a mulher escolheu fazer sexo, voluntariamente aceitando o risco da gravidez. Sexo, porém, não é contrato para gravidez – pessoas tem direito a sexo para fins não reprodutivos. O argumento deles é também sexista e puritano pois pune mulheres, não homens, pelo comportamento sexual.)

Mesmo se o feto fosse um ser humano com direito à vida, esse direito automaticamente não anula o direito de uma mulher escolher, que pode se argumentar ter um valor moral mais alto dadas as circunstâncias. O livre exercício da consciência moral de alguém é um direito fundamental na nossa sociedade. E a partir do momento em que gravidez implica em consequências físicas, psicológicas duradouras e profundas para a mulher (não é uma mera “inconveniência”), as liberdades dela são significamente restritas se ela é forçada a levar a gravidez a termo.

Se fetos tivessem o direito à vida, alguém poderia fazer um caso igual para o direito dos fetos indesejados não viverem. Isto é alheio à suposiçãoanti-escolha  de que toda vida é preciosa e deveria ser encorajada e preservada a qualquer custo. No mundo real, no entanto, algumas pessoas cometem suicídio porque elas não querem mais viver, e outros desejam que nunca tivessem nascido. Vida não é um picnic para todos, especialmente para crianças indesejadas que correm um risco maior de ter vidas disfuncionais. Muitas pessoas acreditam que ser forçado a viver é uma violação da dignidade e consciência humana. Para ser verdadeiramente significativo, o direito de viver deve incluir o outro lado da moeda, o direito de morrer.

Em última análise, entretanto, ter um “direito à vida” exige que alguém seja um indíviduo capaz de viver uma existência independente. Alguém deve “obter uma vida” antes de ter um “direito à vida.” Um feto não é um indíviduo separado – ele vive dentro de uma mulher grávida e depende dela para seu crescimento. De fato, a definição biológica de “parasita” se encaixa precisamente no modo de crescimento fetal, especialmente já que gravidez provoca um imenso distúrbio ao corpo da mulher, assim como um parasita faz com seu hospedeiro. Eu não estou tentando desmerecer fetos com conotações negativas da palavra parasita; de fato, parasitas e seus hospedeiros muitas vezes desfrutam de uma relação de apóio mútuo, e isso obviamente inclui a maioria das gravidezes. No entanto, a relação parasitória de um feto com a mulher significa que a existência continuada requer o consentimento dela – se ela continua a gravidez contra a vontade, os direitos e a integridade corporal dela são violados.

O feto pode ser uma pessoa legal com direitos?

Anti-escolhas gostam de exigir direitos para os fetos. Significantemente, não há apoio para fetos como pessoas legais nos códigos internacionais de direitos humanos. A Declaração Universal de Direitos Humanos diz que “Todos seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.” Praticamente todas as constituições nacionais não tratam fetos como pessoas ou cidadãos. A cidadania americana é limitada àqueles que “nascidos ou naturalizados nos Estados Unidos” (conforme emenda 14) e a palavra “todos” na Constituição Canadense foi considerada pelas cortes para não incluir os fetos. [No Brasil também só são cidadãos aqueles que nasceram no Brasil, sejam filhos de brasileiros residentes no exterior ou que sejam naturalizados]

Declarar fetos como pessoas legais com direitos iria gerar inúmeros dilemas legais e sociais. Fetos teriam que se tornar dependentes para propósitos de impostos e propriedade, contados durante o censo, e sujeitos a muitas outras leis afetando pessoas. Os zigotos não teriam que ter um número de seguridade social, assim como um certificado de concepção? O absurdo completo dessa proposta revela que a sociedade não pensa em fetos como pessoas nos sensos normais, e daria um grande trabalho tratá-los como tais.

Anti-escolhas poderiam argumentar que leis especiais e exceções legais poderiam ser criadas para acomodar as características únicas dos fetos, mas o fato de que leis excepcionais para fetos teriam que ser criadas prova que eles são incapazes de ter o mesmo status que pessoas reais.

Se anti-escolhas querem que fetos dividam os mesmos direitos que o resto de nós, isso significaria que eles deveriam desfrutar das liberdades constituicionais de religião, expressão, assembléia, e outras liberdades básicas. Já que fetos são fisicamente incapazes de acreditar, falar, ou de se reunir, eles não podem ter ou exercitar qualquer direito constitucional. Isso os coloca em uma categoria totalmente diferente de seres humanos habituais. Para dar um outro exemplo, o Capítulo de Direitos e Liberdades Canadense diz que “Todo cidadão do Canadá tem o direito de entrar, permanecer e sair do Canadá.” Fetos obviamente não podem se qualificar para tal direito por si próprios. Ironicamente, o Capítulo também diz “Todos tem direito de não serem arbitrariamente detidos ou aprisionados” – se fetos tivessem direitos, isso proibiria gravidez forçada!

O grande desafio em dar direitos legais aos embriões surge quando tentamos decidir que direitos seriam precendentes quando há um conflito – o direito da mulher ou de seu zigoto. A idéia de que o valor e status de uma mulher formada podem ser igualados com, ou substituído por, um grupo de células indiferenciadas do tamanho de um ponto no final dessa frase não é apenas bizarra, é insultante. Nós estamos pisando no perigoso terreno moral e legal quando trocamos os direitos reais de uma mulher em favor de direitos teóricos de um embrião.

A decisão da Suprema corte dos EUA em 1973 legalizando aborto, Roe v. Wade, tentou equilibrar os direitos de mulheres e fetos ao permitir que estados restringissem aborto no terceiro trimestre, exceto para proteger a vida ou saúde da mulher. Mas esse equilíbrio era simulado – o direito de mulheres escolherem não seria infringido na prática, porque Roe v. Wade apenas proibiu o mítico aborto tardio “casual” inventado por anti-escolhas. No mundo real, mulheres grávidas com fetos de 8 meses e meio saudáveis não exigem aborto casualmente, e médicos não concordam casualmente com elas.  Sugerir o contrário é um insulto a ambos, mulheres e médicos. Infelizmente, por causa desse pressuposto defeituoso de que fetos precisam ser protegidos da irresponsabilidade da decisão de mulheres, Roe v. Wade abriu portar para a passagem de muitas leis que tornam mais difícil o acesso ao aborto, assim como enfraquecimento da própria decisão com decisões tomadas mais tarde pela Suprema Corte. A liberdade e a integridade corporal de mulheres tem sido violadas de acordo.

Eu concordo com a Suprema Corte Americana de que o estado tem um interesse em proteger a vida fetal, mas isso deveria ser feito através de acesso garantido a cuidados pré-natais, planos de saúde, e educação para mulheres grávidas, não ao restringir aborto. Colocar os direitos de mulheres contra seus fetos apenas prejudica os dois – por exemplo, mulheres irão evitar  cuidados pré-natais se elas temerem ser presas por colocarem seus fetos em perigo por causa de abuso de drogas. Os tribunais Canadenses sabiamente desistiram de dar qualquer proteção ao feto em tais circumstâncias, pois eles percebem que podem infringir os direitos humanos estabelecidos de mulheres. Como resultado, mulheres grávidas no Canadá desfrutam de direitos exclusivos sobre seus corpos.  Virar a mesa e exigir direitos legais aos fetos é um apelo direto para a opressão legalizada de mulheres, retirando delas os direitos constitucionais e pessoalidade. Essa perda de direitos e identidade poderia ocorrer não apenas durante os nove meses de gravidez, mas poderia, por necessidade lógica, chegar até certo ponto no papel de mães e futuras mães.

Ironicamente, anti-escolhas estão presos em contradições fatais aqui – mulheres são inegavelmente seres humanos; no entanto anti-escolhas estão bastante dispostos a sacrificar os direitos humanos de mulheres em favor do fetos, cujo status como seres humanos é altamente questionável. Se eles sequer podem respeitar as vidas e direitos de humanos já nascidos, porque deveriamos confiar na suposta preocupação deles por fetos como seres humanos?

O feto possui  identidade social?

Uma boa parte do que faz de nós seres humanos é a nossa habilidade de participar da sociedade, ou pelo menos sermos reconhecidos como membros da mesma. Fetos estão excluidos de ambos por necessidade e costume. Nã0 pode haver nenhuma participação significativa para alguém encausulado dentro de corpo de outro alguém. Fetos nem sequer possuem identidade social, já que nomes não são oficialmente conferidos até após o nascimento. De fato, o certificado de nascimento marca o primeiro reconhecimento legal da existência de uma pessoa. E fetos geralmente não recebem um ritual de enterro quando abortados (espontâneamente ou não). É bem fácil perceber que a morte de um recém-nascido é muito mais devastadora para os pais do que um aborto espontâneo no início da gestação. Pessoas simplesmente dão mais valor social às crianças do que fetos, e essa convenção está entranhada na nossa cultura e história.

Antigamente, mesmo crianças não tinham o mesmo valor que membros da sociedade. Infantícidio era uma prática comum ao longo da história para selecionar os bebês saudáveis e desejados, e conservar os recursos escassos para o resto da tribo. Estima-se que a espécie humana tenha matado de 10 a 15 porcento de suas crianças nascidas. Mais, as taxas de mortalidade infantil por causas naturais era tão alta que bebês não eram oficialmente apresentados a comunidade até meses  ou até mesmo anos depois do nascimento, quando a sobrevivência deles estava assegurada. É claro que isso não é defesa ao infantícidio. Eu estou simplesmente dizendo que pessoalidade, ou o ponto no qual alguém se torna um ser humano “oficial” é juízo de valor criado pela sociedade de acordo com os costumes e necessidade. É uma construção social incapaz de prova empírica. Geralmente, sociedades modernas industrializadas julgam o nascimento como o local mais conveniente e lógico para atribuir pessoalidade, pois é quando alguém começa sua existência independente, mas talvez também por causa da nossa baixa taxa de mortalidade infantil. Ainda assim, bebês não tem uma identidade social estabelecida com a mesma intensidade que crianças mais velhas ou adultos, provavelmente por causa da suas habilidades e potencial humano ainda subdesenvolvidos.

O feto é físicamente um ser humano?

O significado normal de ser humano implica um corpo físico de um certo tamanho e forma com atribuições comuns (com exceção de deficiência). Formas embrionárias iniciais não compartilham as semelhanças básicas que nos definem como seres humanos. Por exemplo, zigotos e blastócitos são pouco visíveis a olho nu e não possuem corpos, cérebro, esqueleto, ou órgãos internos.  Eles são materialmente substanciais o bastante para serem contados como seres humanos? Fetos não podem respirar ou emitir sons, e eles não podem ver ou serem vistos (exceto através um ultrassom cheio de sombra). Eles absorvem nutrientes e expelem excrementos através do cordão umbilical e placenta, não através do ânus como todos os seres humanos.  Mais além, fetos não são apenas bebês em miniatura.  Em vários estágios, fetos possuem olhos em hastes, corda dorsal (ao invés de espinha), brânquias como de peixes, rabos, pêlo felpudo, tronco distorcido, pernas finas, cabeças gigantes, e faces com aparência alienígena. De fato, a aparência de um feto humano em estágio inicial é praticamente indistinguível a de um feto de cachorro ou porco. Finalmente, o cérebro fetal ainda não é capaz de pensamentos conscientes e memória (que não são totalmente atualizadas até 2 ou 3 anos após o nascimento). Nossos cérebros complexos são o que nos diferencia de outros animais e nos definem como seres humanos. O cérebro é a sede da pessoalidade.

Considerando que feto no início nem mesmo se parece reconhecidamente humano, não pode envolver-se em percepção humana normal ou pensamento, e não possui a maioria das funções corporais básicas humanas, podemos chamá-lo de ser humano?

É claro que há semelhanças físicas notáveis entre um feto e um recém-nascido, tais como mãos e pés bem desenvolvidos em um estágio relativamente inicial, e forma estrutural como um todo. Conforme o nascimento se aproxima, um feto se parece ainda mais com um recém-nascido, até que não há diferença significante por volta de 30 semanas de gestação. Anti-escolhas focam exclusivamente nessas semelhanças, enquanto ignoram as diferenças. Por exemplo, uma fotografia anti-escolha super popular mostra um feto de 10 semanas perfeitamente formado, com pézinhos, sendo gentilmente segurado entre o polegar e o dedo indicador de alguém. Não há nenhum sinal do resto do feto inicial, que mal se parece com um humano. Anti-escolhas tentam não usar fotos de embriões e fetos iniciais precisamente porque eles parecem bem menos humanos do que os que estão em estágios mais avançados (quando eles fazem, eles normalmente aumentam a foto para fazer com que o embrião ou feto pareçam ter o mesmo tamanho do um bebê). Mesmo as fotos frequentemente mais usadas de fetos tardios, tendem a deliberadamente proteger da visão qualquer coisa que diminui as qualidades parecidas com humanas, como a placenta ou tronco com um formato estranho. (Além de mulheres e seus úteros serem completamente apagado de tais fotos).

Óvulos e embriões são indíviduos estáveis?

A existência embrionária é muito incerta. Zigotos, blastócitos e embriões possuem uma alta chance de  insucesso, o que joga água fria na afirmação dos anti-escolhas de que todo óvulo fertilizado é sagrado. Cientistas estimam que 55 a 65% de todas as concecpções são espontâneamente abortadas nos primeiros dias ou semanas da gravidez, normalmente sem a mulher saber que estava grávida. Isso se chama “perda fetal.” Outros 10 a 15% de gravidezes são interrompidas nos meses que seguem. Perda fetal ocorre porque formas iniciais embrionárias possuem uma taxa alta de deficiência – a maioria dos abortos espontâneos iniciais são causados por defeitos genéticos no óvulo fertilizado. Isso mostra que óvulos e embriões não podem ser qualificados como seres humanos de acordo com a própria natureza – no máximo eles representam experimentos para a raça humana.

Embriões são capazes de se dividirem em dois, para formar gêmeos, e podem até combinar-se novamente mais tarde. Isso causa um sério dano sobre a idéia de pessoalidade única, e a crença comum de que uma “alma” é infusa em um zigoto na concepção. Será que gêmeos dividem uma mesma alma que eles receberam durante a concepção, ou o segundo gêmeo recebe uma alma tardiamente após a divisão celular? Se for o último, qual alma é perdida se os embriões se recombinarem? Essas perguntas são inintelígiveis se embriões são seres humanos, mas simplesmente discutíveis se eles não são.

Conforme mencionado anteriormente, nós somos mais do que nossos genes, então óvulos fertilizados não podem representar um ser humano “completo” como anti-escolhas gostariam. Nós ainda não somos nós mesmos na concepção. Tudo aquilo que a mulher grávida comer, beber, inalar, e fizer, possui um grande impacto no ser humano específico que o feto se tornará. Nossos cérebros, personalidades, habilidades, e traço físicos são formados pelo nosso ambiente assim como pela genética. Além disso, anti-escolhas afirmam que nada é adicionado ao óvulo fertilizado, a não ser nutrição, mas isso má interpretação sobre a forma que o embrião se desenvolve.  O desenvolvimento dramático que torna o zigoto em um recém-nascido não é simplesmente crescimento – é uma metamorfose radical, turbulenta e constante, com células individuais se reproduzindo, migrando, e desenvolvendo funções específicas em termos específicos. O resultado final é como uma complexa sinfonia com bilhões de músicos que começou com um único instrumento de uma nota só.

Pode uma entidade com tal contingente e mutável realmente ser identificada como um ser humano completo e único em todos os estágios?

Vida é um jogo incerto

Anti-escolhas não se convenceriam pelas evidências nesse artigo, pois ele não refuta a convicção emocional de que um óvulo fertilizado representa um ser humano real e único, assim como eles. Eles se identificam com o óvulo fertilizado (é de onde viemos, afinal de contas) e sentem horror e ansiedade ao pensarem que eles poderiam ter sido abortados. Mas vida é jogo incerto. Se os seus pais tivessem decidido não fazer sexo na noite em que você foi concebido, você não teria existido. Se o seu pai tivesse usado camisinha, você não teria existido. Ou você poderia ser concebido, e então abortado espontâneamente. Se você tivesse sido abortado, sua mãe poderia ter tido outros filhos mais tarde que não existiriam sem o seu aborto. E assim por diante. Por fim, se você não tivesse nascido, não teria importância para você, da mesma maneira que não pode ter importância para os fetos abortados que eles não nasceram. A não-existência não sente pesar pela não-existência, e quando os vivos começam a se preocupar com o não existente, eles descem a uma irracionalidade sem sentido.

Além do mais, a diferença entre um óvulo fertilizado, um esperma e um óvulo não fertilizado é relativamente pequena. O esperma e o óvulo representam ambos o potencial para um ser humano. Homens liberam bilhões de espermatozóides condenados por toda vida, e praticamente todos os milhares de óvulos de mulheres são desperdiçados. O número de seres humanos em potencial e únicos perdidos eternamente é astronômico, e embora a nossa pura sorte de estarmos vivos pareça milagrosa, é inútil perder o sono por causa desses assuntos – é ainda mais inútil oprimir metade da população mundial só para que alguns desses zilhões de seres humanos em potencial possam existir.

Isso não quer dizer que a vida humana não tenha valor. É claro que tem, mas somente o valor que nós conferimos a ela – em biologia, vida é barata, vida é desperdício, e morte é vital. A natureza não valoriza humanos mais do que minhocas, e em todas as espécies, um vasto número de ovos e sementes não possuem chance de alcançarem maturidade. A vida tem sido barata por toda história humana também – é a medicina moderna que nos permitiu manter a maioria dos nossos bebês vivos pela primeira vez. Por que derramamos lágrimas fúteis sobre o leite derramado e os fatos da vida? Ao invés disso, vamos nos focar em proteger os direitos e melhorar a qualidade de vida dos seres humanos nascidos.

Conclusão

Apesar do potencial que um feto tem para se tornar um ser humano, e semelhanças com um ser humano, nós não podemos dizer que um feto é um ser humano. O feto reside numa terra social e legal de ninguém, onde direitos e pessoalidade não podem ter força ou significado a não ser que mulheres sejam mantidas sob opressão. Além disso, há muitas diferenças entre seres humanos nascidos e um feto, o que cria uma dúvida significável ao seu status. Porque não há consenso sobre essa questão, o valor concedido ao feto é subjetivo, questão pessoal. Indíviduos, não sociedade como um todo, devem escolher qual status o feto deve ter, baseados nas suas crenças pessoais, moralidade e circunstâsncias. E no fim das contas, essa escolha pertence apenas à mulher grávida.

***

Fonte: http://www.abortionaccess.info/fetusperson.htm

* No texto original, o termo usado é “begging the question,” cujo o significado não tem qualquer relação com a tradução literal. Por desconhecer algum termo em Português que tenha o mesmo significado, eu optei por usar “supor o ponto inicial. ” Begging the question (ou ou petitio principii ”, supondo o ponto inicial”)  é um tipo de falácia lógica em que a proposição a ser provada é presumida implicitamente ou explicitamente na premissa.

Esta entrada foi publicada a Uncategorized. Adicione o permalink aos favoritos.

2 Responses to Pessoalidade: O feto é um ser humano?

  1. Adriano disse:

    Não, o feto humano não é humano não, ele é um ovo de tartaruga marinha, SÓ É HUMANO QUANDO NASCE, ou é um mosquito, já que é problema de saude publica, ou então é uma COISA, que pode ser expelida a hora que a “mãe safada” quizer.
    Que absurdo, É CLARO QUE É UM SER HUMANO, EM FORMAÇÃO, QUE MAIS SERIA, NÃO FAZ PARTE DO CORPO DA MULHER, ESTUDEM , ELE É UM SER PROPRIO EM FORMAÇÃO, DEVE SER PROTEGIDO A TODO CUSTO, UM BEBE EM FORMAÇÃO.
    DEVERIA TER OS MESMOS DIREITOS DO OVO DE TARTARUGA, BANDO DE ABORTISTAS.

    • D.H.S disse:

      Adriano, vc tem algum problema de interpretação?

      O feto humano é humano (adjetivo) mas ele não é um ser humano (substantivo)

      Só é um ser humano no momento em que puder sustentar vida sozinho sem utilizar os recursos ou residir dentro do corpo de outra pessoa, ou seja, após o nascimento.

      A mãe safada tem o direito de fazer o que quiser com o corpo dela e vc não tem nada a ver com isso.

      Como disse não é um ser humano. É um ser humano em potencial em formação? Sim. Faz parte do corpo da mulher? Totalmente irrelevante, ninguém tem o direito de usar o corpo de outra pessoa sem o consentimento daquela pessoa.

      Proteger fetos significa violar direito de mulheres, claro que um misógino como vc não entende que mulheres tem direitos.

      O ovo da tartaruga não está ocupando o corpo de uma pessoa, se estivesse e aquela pessoa quisesse removê-lo, os direitos dos ovos de tartaruga não poderiam ser maiores do que o direito do dono do corpo que eles ocupam.

      Difícil entender isso? MISÓGINO!

Deixe uma resposta